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É carnaval em terras brasileiras. Cinco dias de folia, descontração e liberação geral. No carnaval tudo pode, tudo é permitido, e tudo convem. Não importa o quanto eu ache que isso seja errado.

Como esses serão os meus primeiros dias de férias, eu me liberei um pouco das leituras para curtir a presença dos amigos. Mas não consegui me abster totalmente, e eis que quando abro o caderno Cotidiano, da Folha de S. Paulo de sábado, por óbvio a notícia principal era sobre o desfile das escolas de samba de SP, que teve sua primeira parte na sexta, dia 20. Tudo muito bonito até você chegar à segunda página do caderno, onde você encontrava em tamanho gigante, a foto de uma mulher [que claro, eu nem me dei ao trabalho de recordar o nome] com os seios de fora.

Sei que o carnaval é tempo de liberação, e que aqui na nossa terra o puritanismo não reina, mas... não dava pra ter um pouco mais de senso? Quero dizer, eu acredito que o jornal, ainda mais a Folha de S. Paulo, é um veículo de comunicação sério, e que deveria zelar pela ética, PELO MENOS. O jornal não é lido apenas por homens e adultos, como os seus editores podem pensar, mas tem muitas mulheres, jovens, adolescentes e até crianças que folheiam suas páginas de vez em quando.

Por mais que seja carnaval, e seja libertinagem total, acredito que tudo tem um limite. Eu não sou puritana, e acho ridículo quando nossas autoridades começam com esses discursos de puritanismo, como da vez em que uma empresa de turismo estrangeira praticamente divulgou que o Brasil era um grande prostíbulo. Como é que você quer que um país que estampa fotos de mulheres nuas nas páginas dos seus jornais seja levado a sério?

Cabia, nesse caso, ao meu ver, uma tira preta, daquelas que cobrem os olhos dos menores infratores, cobrindo os seios da mulher na foto. Não dá para um jornal que se diz sério usar o carnaval como desculpa para 'tudo pode', 'tudo é válido'.

Não li a notícia, como disse, estava apenas folheando o jornal. Não vi nem o nome da mulher, e nem vi se mais alguém se sentiu ofendido com a foto, na seção do leitor de hoje. Mas eu duvido muito que alguém tenha realmente se ofendido com isso: é carnaval. Cinco dias de folia, descontração e liberação geral. Ninguém vai se preocupar em ver seios estampados no jornal. Hoje eles estão por toda a parte.

Toda vez que surgem casos como o da menina Eloá ou da criança Isabella na televisão, em que se passam dias e dias discutindo com 'especialistas' no assunto, em que nem adianta mudar de canal porque todos eles vão falar sobre a mesmíssima coisa, me pergunto: é realmente necessário?

As notícias serem repassadas à população no formato de notícias, aí sim, é necessário. As notícias serem repassadas no formato de novela, aí não. Todo sofrimento é noticiado passo a passo e as pessoas assistem passivamente em suas confortáveis salas de estar, como se estivessem assistindo a mais um capítulo da novela das oito que passa às nove.

Passividade, taí uma palavra que cabe no contexto.

Passivo também se torna o jornalista que, por um punhado de moedas ou de prestígio momentâneo, se presta a um desserviço como o que aconteceu no mais recente caso de sensacionalismo jornalístico. Entrevistas ao vivo com seqüestrador, com seqüestrada, com o vendedor de hot dog que estivesse ali só pra fazer uma graninha: a mídia sensacionalista não esconde nada!

[qual era a cor da blusa que a menina estava usando quando voltou ao apartamento?]

Quanto mais sofrimento, mais audiência. Quanto mais audiência, mais grana no bolso. Do povo? Certeza que não. O povo não tem tempo de pensar em grana no bolso. Precisa acompanhar a última notícia urgente, marido mantém a esposa em cárcere privado durante 8 horas. Ah sim. Inspirado no último caso noticiado pela mídia.

Notícia que gera notícia.

[o sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia]

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